quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Resenha: O Silêncio das Mariposas


O Silêncio das Mariposas (Editora Multifoco, 2010), escrito em seis meses pelo jornalista Juliano Schiavo traz consigo um forte traço das obras de Anne Rice, seja por manter as mesmas características mitológicas do mito vampiro ou pela personalidade profunda e filosófica dos personagens. Pode ser vista como falta de criatividade por alguns ou como uma homenagem sincera por outros.

A trama em si é um longo desabafo de um personagem sem nome ou sexo. Sem modéstia o narrador fala da sociedade e de ações incômodas por quais todos passam para poder agradar aos próximos e tornarem-se amáveis de uma maneira totalmente falsa. Esse é, talvez, o melhor ponto do livro.

O protagonista é transformado em vampiro durante um baile de máscaras pelo irresistível Lúcio. Daí em diante a história passa por ciclos cansativos em que a nova criatura tem sonhos aparentemente indecifráveis, mas que se mostram reflexos ou memórias de pessoas que marcaram sua vida mortal e que agora ele deseja experimentar o sangue, já que junto com este, pode absorver emoções e sentimentos.

O relacionamento com Lúcio é extremamente paterno e sexual, modelado por tons de sentimentos que o leitor não consegue compreender totalmente. As mariposas do título são símbolos de uma angustia profunda que persegue o vampiro tanto na mortalidade, quanto na imortalidade. Angústia e melancolia talvez definam a única maneira de ver o mundo através desse livro.

As 214 páginas deste tomo mereciam uma maior atenção editorial, assim como de copidesque. Um exemplo disso é a repetição exaustiva do adjetivo andrógino cada vez que Lúcio está em cena ou falhas gramaticais.

Para aqueles que esperam as grandes perseguições ou romances “sangue-com-açucar” da modinha, não é um bom título.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Resenha: Neon Azul

“Cada um vê o Neon de maneira diferente”. Esta é uma frase que se repete ao longo do livro “Neon Azul”, escrito por Eric Novello, que foi lançado recentemente pela Editora Draco e que mostra ser a essência da obra.

“Neon Azul” é um romance fix-up fantástico.

Formado por vários contos-capítulos, ou capítulos-contos, em que várias histórias tratam de um mesmo assunto e se conectam em diferente níveis para contar uma história cíclica.

Ao todo são 9 contos de temática fantástica que tratam tanto do bar, boate ou inferninho Neon Azul, sua misteriosa atmosfera e a presença ou ausência do incrível e desconhecido dono, o Homem.

Um desfile de personagens autênticos e com histórias de vida críveis, exceto por um ou dois, é o forte do livro. Todos têm a chance de deixar de ser figurantes em um conto para se transformar em protagonistas na história seguinte.

O clima musical de notas escritas envolve o leitor com a força necessária para transmitir a vida noturna vivenciada no Neon Azul. De certa maneira, o livro demonstra algo diferente de outros livros com temática fantástica, um realismo e uma nacionalidade na medida certa.

“Noites de insônia”, que conta a vida do insone gerente do bar, tem um tom fantástico-científico, enquanto “Invasão de privacidade” transcreve de forma clara o próprio autor ao lado de seus personagens.

Boa escrita, leitura leve e cuidado com os variados estilos de narração fazem com que as 166 páginas do romance sejam devoradas em poucas horas, com um gostinho de quero mais no fim.

“Os livros são como espelhos: neles só se vê o que temos dentro”, disse um dos personagens de Carloz Ruiz Zafón em “A Sombra do Vento”. É uma verdade totalmente aplicável para os leitores mais atentos, penso eu.

Então, convido você a colocar de bom grado a cabeça para dentro da entrada do Neon Azul; provavelmente ele se moldará às suas necessidades.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Resenha: Água para Elefantes


O livro da canadense Sara Gruen é uma deliciosa viagem pelas lembranças de um homem que guarda um segredo e tem a consciência pesada por isso.

Jacob Jankowski vive em uma casa de repouso. Tem 90 ou 93 anos. Uma coisa ou outra, como ele mesmo diz. Sua convivência com a idade avançada corre normal, até que um circo começa a ser montado na frente do asilo. Fato que lhe traz a memória histórias que mudaram sua vida.

A história é intercalada por capítulos passados dentro do asilo, técnica antes utiliza nos livros À Espera de Um Milagre de Stephen King ou Diário de uma Paixão de Nicholas Sparks. Na realidade estes trechos mostram um Jacob mais real que o jovem das lembranças e logo o leitor se torna um amigo íntimo dele e de sua enfermeira favorita, Rosemary.

Durante a Grande Depressão o jovem Jacob é um universitário de Medicina Veterinária prestes a prestar os exames finais para poder trabalhar, mas, infelizmente seus pais morrem em um acidente de carro. A casa é tomada pelo banco e seu estado psicológico fica abalado. A única coisa que consegue fazer é fugir e entrar no primeiro vagão de trem aberto que vê.

Quando se dá conta torna-se o protegido de Camel e passa a trabalhar para o temido Tio Al, dono do Circo Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra.

Jacob começa a dividir um vagão com o anão Walter e com sua cadela e passa a trabalhar com August, diretor do setor eqüestre do circo. August é uma pessoa de temperamento explosivo e é casado com a bela Marlena.

Marlena, responsável por uma atração com cavalos, torna-se a paixão de Jacob, algo que o consome diariamente.

Como pano de fundo temos a vida no circo, a decadência da década de 30, a falência dos demais espetáculos, a disputa pelas atrações que ficaram pelo caminho, o medo de ser jogado do trem durante a noite caso Tio Al deseje ou a diferença entre artistas e trabalhadores.

Jacob passa a ser o veterinário do espetáculo e começa a dividir seus sentimentos entre Marlena e Rosie. Rosie é uma elefanta que só tem postura de burra, mas que no fundo é a salvação do circo.

O clima torna-se pesado depois de um ataque de fúria de August contra Jacob e Marlena que vê uma situação que na realidade não existe. O fim do livro é satisfatório tanto para quem acompanhou o jovem e o idoso Jacob durante a quebra do seu silêncio sobre o passado.

A escrita leve e agradável de Sara, assim como a pesquisa pesada realizada para trazer esse livro à tona tornam tudo muito mais real e palpável do que esperado.

O livro virou filme com Reese Witherspoon e Robert Pattinson. Como o slogan do filme eu te convido a ler o livro e ver que a vida é o mais fantástico espetáculo na terra.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Prêmio Melhores de 2010

Pra fazer uma brincadeira e aproveitar pra indicar alguns livros para os leitores do meu blogue... crio agora o Prêmio Alex Bastos Melhores do Ano pra comemorar os 10 melhores livros lidos anualmente.
E eles ficam de dica para o ano de 2011.


Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe


Os homens que não amavam as mulheres, Stieg Larsson


Morto até o anoitecer, Charlaine Harris


Annabel e Sarah, Jim Anotsu


Orgulho e Preconceito, Jane Austen


Fábulas do Tempo e da Eternidade, Cristina Lasaitis



Alice - Aventuras de Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá


A menina que roubava livros, Markus Zusak


A Estrada, Comarc McCarthy


O Hobbit, J. R. R. Tolkien

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Livros Lidos em 2010

Faltando poucos dias para o começo de um novo ano, todo mundo fazendo uma retrospectiva das coisas boas e más que aconteceram ao longo de 365 dias e fazendo promessas para os próximos. Eu, como todo bom leitor já tenho uma pré-lista de leitura para 2011 e a pretensão de ler mais do que o fiz até agora.
Fico feliz em pelo menos ter acrescentado escritores nacionais de qualidade indiscutível nas minha lista de livros, espero que você possa fazer o mesmo. Feliz ano novo e ótimas leituras pessoal!
Esse foi o meu 2010 em livros:

Primeiro Semestre

1. Darren Shan – O Circo dos Horrores

2. Darren Shan – O assistente do vampiro

3. Rick Riordan – O Ladrão de Raios

4. Beatrix Potter – Nursery Rhyme Book

5. Philip Pullman – A filha do fabricante de fogos de artifícios

6. Ana Cristina Rodrigues – Anacrônicas

7. J. R. R. Tolkien – O Hobbit

8. Comarc McCarthy - A Estrada

9. Lemony Snicket – Serraria Baixo-Astral

10. Max Lucado – Um amor que vale a pena

11. Ana Lúcia Merege – O Caçador

12. Markus Zusak – A menina que roubava livros

13. Isaac Asimov(org.) – Histórias de Robôs Vol.1

14. Anne Rice – Entrevista com o vampiro

15. Richard Diegues(org.) – Paradigmas 4

16. Richard Diegues(org.) – Paradigmas 1

17. James C. Hunter – O monge e o executivo

18. Fábio Fernandes – Dias de Peste

19. Darren Shan – Túneis de Sangue

20. Heloisa Seixas(org.) – Depois – Sete histórias de horror e terror

21. Jim Anotsu – Annabel e Sarah

22. Lewis Carrol – Alice – País das Maravilhas e Através do Espelho

23. Ademir Pascale – O Desejo de Lilith

24. Jane Austen – Orgulho e Preconceito

25. Rick Warren – Uma vida com propósitos

26. Eddie Van Feu – Exorcismo

27. Charlaine Harris – Morto até o anoitecer

28. Vários – Imaginários 1

29. Richard Diegues(org.) – Paradigmas 2

30. Stephen King – Saco de Ossos

31. Jane Austen e Seth Grahame-Smith – Orgulho e Preconceito e Zumbis

32. Douglas Adams – Praticamente Inofensiva

33. Annie Prouxl – O Segredo de Brokeback Mountain

34. Tibor Moricz – Fome

35. Stieg Larsson – Os homens que não amavam as mulheres

36. Charles Dickens – Histórias de fantasmas

37. Max Lucado – Seis Horas de um Sexta-Feira

38. Max Lucado – Gente como a gente

Segundo Semestre

39. Max Lucado – Você – a ideia mais fantástica de Deus

40. Umberto Eco e Jean-Claude Carrière - _não contem com o fim do livro

41. Samir Machado de Machado(org.) – Ficção de Polpa Vol. 2

42. Vários - Imaginários 2

43. Ron Rhodes – A verdade por trás dos espíritos, médiuns e fenômenos paranormais.

44. Cressida Cowell – Como treinar o seu dragão

45. Patrik Tort – Darwin e a ciência da evolução

46. Charles Dickens – A Vida de Nosso Senhor

47. J. R. R. Tolkien - A Sociedade do Anel

48. Peter Haining(org.) – A Caverna dos Magos

49. Max Lucado – Sem Medo de Viver

50. Nicholas Sparks – Querido John

51. Michael Thomas Ford – Jane Austen – A Vampira

52. Neil Gaiman - O Livro do Cemitério

53. Cassiane – Uma vida com muito louvor

54. Charlaine Harrris – Vampiros em Dallas

55. Vários – Meu amor é um vampiro

56. Rita Maria Felix da Silva – Vejo um universo em teus olhos...

57. José Saramago - Caim

58. Rick Howard – Panorama do Antigo Testamento – Tendas, Templos e Palácios

59. Charlaine Harris – Clube dos Vampiros

60. Martha Bolton – O Lado Divertido da Bíblia

61. Don Gossett – Há poder em declarar a palavra de Deus

62. Bernhard Schlinck – O Outro

63. Lauren Kate – Fallen

64. Fernando Pessoa – Mensagem

65. Cristina Lasaitis -Fábulas do Tempo e da Eternidade

66. David Duncan – Doutrina da Salvação – Vivo em Cristo

67. Stephen King – Celular

68. Bíblia Sagrada

69. Samir Machado de Machado(Org.) – Ficção de Polpa Vol.1

70. Edgar Allan Poe – Histórias Extraordinárias

71. Allan & Barbara Pease – Como conquistar as pessoas

72. Agatha Christie – O caso dos dez negrinhos

73. Neil Gaiman - Coisas Frágeis

74. José Rodrigues dos Santos - A última entrevista de José Saramago

75. Neil Gaiman – Coisas Frágeis 2

76. Mitch Albom – As cinco pessoas que você encontra no céu

77. Melissa Panarello – 100 escovadas antes de ir para a cama

HQ’s

1. Greg Rucka - Whiteout: Ponto de Fusão

2. Bill Watterson – Something under the bed is drooling

3. Marjane Satrapi – Persépolis

4. Estevão Ribeiro – Hector & Afonso

5. Steve Niles – Aberrações no Coração da América

6. Clássicos da Literatura 1 – Os três mosqueteiros/ O máscara de ferro/ O capitão fracasso

7. Sakura Kinoshita – Alice no País das Maravilhas

8. Clássicos da Literatura 8 – O Mágico de Oz/ As Aventuras de Tom Sawyer

9. Brian K. Vaughan, Pia Guerra, José Marzán Jr. - Y – O último homem – Extinção

10. Clássicos da Literatura 23 – O Senhor dos Anéis | Alice no País das Maravilhas

sábado, 13 de novembro de 2010

Vida suja


Calor. Água, muita água.

Perdi a noção do tempo embaixo do chuveiro. As pontas dos dedos estavam enrugadas, inchadas, insensíveis. Assim como parte de mim. Queria que a substância líquida principal do banho penetrasse minha epiderme, derme, endoderme, que ela lavasse a alma. De certa maneira tinha certeza de não ter errado em minhas últimas decisões, não tivera outras opções. Eu era o que era por culpa do destino.

Sai de casa, lugar sujo, opressivo, pestilento. Peguei o ônibus sob os olhares desejosos e reprovadores. Pessoas ignorantes, incompletas, sem sonhos. Como eu. Peguei mais dois ônibus, mais pessoas, mais olhares.

Desci na avenida do trabalho, cumprimentei as colegas, desprezei as inimigas, rezei pedindo que aquele fosse o último dia. Todos os dias fazia a mesma oração.

Comecei a caminhar perto do meio-fio, rebolando, torcendo para que um carro novo, com cheiro de novo, com um jovem dono parasse logo e me chamasse.

As luzes dos faróis se sobrepunham sobre minha sombra, fazendo-a dançar. Talvez ela estivesse feliz, talvez não precisasse fazer o que eu fazia.

Ia e voltava me exibindo em uma vitrine invisível no limite de território seguro das prostitutas.

O carro parou, a voz me chamou.

“Quanto?” e as coisas de sempre.

Entrei no carro, velho, fedendo a mofo.

Não conversei, não tínhamos assunto. Além do mais não era paga pra conversar. Entramos no motel mais próximo. Decadente.

O cliente era bonito e de corpo atlético. Eu não tinha muita escolha, mas tinha preferência pelos que aparentavam ser mais saudáveis. Veio pra cima de mim, sem notar que eu me sentia como um pedaço de carne sendo usada apenas para deixar que o pênis intumescido entrasse e saísse até expelir sêmen.

Enquanto eu gemia e fazia movimentos perfeitamente mecânicos de prazer pude observar minha sombra. Ela também era abusada pela sombra dele. Éramos quatro ali, mas apenas dois aproveitavam o momento.

Ele terminou, gemendo, suando e gozando. Não se importava se eu estava gostando ou não. Deitou do meu lado sorrindo.

Levantei e fui ao banheiro. Liguei o chuveiro esperando que água lavasse e levasse meus pecados. Água, muita água.

Mais um dia.

Menos um dia.

sábado, 11 de setembro de 2010

Espirais de Magia

A feiticeira Ada levantou-se respirando o ar da noite fria. Seu cabelo vermelho manchava a escuridão como uma salamandra de fogo, o perfume da pele misturando-se com o aroma das flores noturnas.

Curvou-se para frente e impulsionou os pés em direção ao precipício à sua frente. Os braços transformaram-se em asas com belas penas e foram diminuindo, assim como seu corpo. Em segundos, abandonou a forma de mulher e transformou-se em uma coruja de grandes olhos amarelos.

Sobrevoou o pequeno vilarejo abaixo de si e escolheu com precisão a casa onde entraria. Na porta da casa, abandonou a forma de ave e voltou a ser uma linda mulher nua.

Com um movimento de sua mão, a porta de madeira abriu-se sem fazer ruídos. Entrou na casa singela, admirando até mesmo a teia de uma jovem aranha que se aninhara num canto da cozinha. Ada estava triste, iria abandonar a região.

Empurrou a porta do quarto e observou por um longo tempo o homem adormecido entre os lençóis. Seu homem. Ajeitou-se ao lado dele, colou seu corpo frio e soprou no ouvido dele, impossibilitando completamente que despertasse do sono enquanto ela estivesse ali.

Com os dentes pontiagudos, furou-lhe o pescoço e sugou o líquido carmesim; conforme provava do sangue, parte da alma de seu amado incorporava-se à sua.

Saiu da casa com a mesma delicadeza com que chegara.

Olhou para o amontoado de madeira e palha no centro da vila, onde pretendiam queimá-la no dia seguinte, transformou-se em animal e correu para a floresta, deixando para trás espirais de magia.