sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Resenha: Suicidas - Raphael Montes


     Suicidas é um uma cereja – deliciosa - de alta qualidade sobre a maioria das obras produzidas sem cuidado editorial no país. Qualidade literária de um autor iniciante abaixo da linha do Equador é um colírio nos olhos de qualquer leitor.
     O ponto de partida para o livro é o mistério envolvendo o suicídio de nove jovens cariocas, os motivos individuais e do grupo são trabalhados com cuidado ao longo das 487 páginas.
     Três linhas narrativas diferentes são usadas para contar a história e manter a trama no ritmo perfeito de pageturner. Alessandro Parentoni é o personagem responsável por direcionar o leitor através suas anotações anteriores à roleta-russa e com seu livro que narra os acontecimentos dentro do porão onde os corpos foram encontrados, a terceira narrativa vem das gravações realizadas pela delegada Guimarães com as mães dos suicidas durante uma longa entrevista realizada um ano após o suicídio.
     Seguir sob uma narração bem feita em primeira pessoa é muito bacana dentro de livros policiais, permite acreditar e ver somente o que o narrador diz, criando assim milhares de outras peças para o quebra cabeça fora desse ponto de vista.
      Todos têm segredos e a juventude ainda sofre com tabus que lhe cercam diariamente, em qualquer canto do planeta independente da classe social ou religião, e não é diferente com os personagens que decidem deixar esse mundo de forma repentina.
     Raphael deixa claro que ninguém conhece realmente ninguém e mistura temas ainda evitados no século XXI, tais como bissexualidade, Síndrome de Down e psicopatia por si só.
     A obra parece uma versão atual e melhorada para – o clássico, o amado, o aclamado! - O caso dos dez negrinhos na escrita inteligente de Martin Amis, invertendo os subgêneros dentro da secular arte da literatura de mistério. Qualidade e diversão garantida.

sábado, 29 de setembro de 2012

Trem Noturno – Martin Amis


Acima de tudo esse livro é um profundo romance noir.
           Martin Amis é um inglês que situa sua trama em uma cidade dos Estados Unidos, como os bons clássicos dessa vertente, entretanto, no lugar de um policial decadente o papel principal da trama é dado a uma mulher – com nome de homem -, Mike Hoolihan.
          Os adjetivos básicos para uma obra noir estão firmes e fortes tanto em Mike quanto nas demais partes do livro. Ela é uma policial melancólica, fumante, ex-alcoólatra e em alguns momentos fria. E é pelo ponto de vista narrativo de Mike que vemos o mundo, tendo como gatilho um crime.
Jennifer é a loira que desenvolve o papel de femme fatale ao inverso, já que é encontrada morta, nua e com três tiros dados na boca. Alguém linda, saudável, bem casada, exímia profissional e sempre sorridente poderia do nada cometer o suicídio?
Suicídio é, talvez, o maior assunto das entrelinhas que ocupa parte do discurso interno da narradora. Suicídio é o trem noturno. Aquela última ação irreversível cometida enquanto todos os demais mortais estão na tranqüilidade de suas camas, digo, vidas. O trem noturno é a morte que apenas nos leva pra estação final.
Quando eu falo sobre alguns trechos crus ou duros nada melhor que dois fragmentos que me tocaram: ‘Pensei: que bela cena de crime’ ou ‘Oito dias depois e Jennifer Rockwell ainda está aberta como um prato de banquete... ‘
Sendo Jennifer uma conhecida e o pai dela seu chefe, Mike mergulha na investigação, avaliando todos os pontos de uma vida perfeita em busca de uma falha na felicidade visível nas ações da mortal dama morta.
O niilismo, a solidão no meio urbano, as falhas morais e os flashbacks dos romances que iniciaram o noir foram moldados para serem lidos ao som do jazz Night Train de Oscar Peterson.
Este é o livro quando você procura uma narrativa angustiante, que vai apertando as têmporas conforme as páginas passam e mesmo assim não se esquece de ser questionador.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Resenha: Corrida de Escorpião - Maggie Stiefvater


       No mar de Escorpião existe uma ilha, no mês de novembro cavalos mágicos surgem do oceano para  o bem ou mal dos moradores...
      "Os cavalos d'água são famintos e maus, violentos e belos, amam e odeiam cada um de nós."
      A autora baseada na lenda irlandesa-escocesa dos capall uisce (O Brasil tem essa versão também, o boto cor-de-rosa que se transforma em homem) utilizou alguns aspectos da história em um cenário simples para compôr uma intriga interna entre dois personagens principais não muito diferentes. 
      Sean e Puck são os protagonistas e também os narradores. Ambos, infelizmente, não convencem o leitor e nem possuem uma linguagem diferente para descrever as situações, que são realizadas cronologicamente. 
       Puck é uma jovem com dois irmãos, órfãos. Decide participar da Corrida de Escorpião para manter seu irmão por mais um tempo morando na ilha, coisa que desde o princípio é obviamente desnecessária e tola para o leitor e qualquer outro personagem fora de sua pele. Lá pelo meio da história ela se dá conta disso, mas pretende participar mesmo assim .pelo prêmio em dinheiro, já que a casa onde mora está prestes a ser tomada pelo credor. 
      Sean já ganhou a Corrida de Escorpião quatro vezes - das seis em que participou -  e sabe que correr com capaill uisce é uma coisa perigosa e mágica. Ele precisa do dinheiro e da vitória para poder comprar seu cavalo, Corr. 
      De um lado um vencedor experiente com seu capaill uisce e do outro Puck com sua égua normal, Dove. 
        A autora não soube trabalhar a narração dos personagens, muitos capítulos são diferenciados apenas porque começam com o nome do narrador, ritmo, vocabulário e personalidade se confundem o tempo todo.  Em compensação não caiu na febre da literatura Young Adult em colocar a jovem dividida em duas paixões másculas, sobrenaturais e com barriga de tanquinho. 
      Puck sofre com o machismo por ser a primeira mulher a se inscrever na Corrida e Sean sente a cobrança de ser um vitorioso solitário. Um romance entre os dois era inevitável desde o início, mas consegue se manter saudável e dentro dos limites de um livro de ação. 
       Qualquer comparação com Jogos Vorazes é inútil apesar da proposta: Algumas corridas são feitas para vencer. Outras, para sobreviver. 
       Poucos capítulos não são cansativos, chegar ao meio do livro foi um trabalho lento e talvez desse ponto em diante é que a escritora consegue, desculpe pela expressão, tomar as rédeas e mostrar o que pretende fazer com a trama.  
      Minha principal intenção ao ler A Corrida de Escorpião era entender mais o amor aos cavalos e um funcionamento de um haras. Em nenhum me senti satisfeito. Se o livro deixou na mão em muitos aspectos, pelo menos ensinou uma verdade que talvez muitos jovens venham a aprender: Nada é completamente inofensivo. 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Resenha: Geração Subzero - Org. Felipe Pena




Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.” Esse é um resumo da longa introdução do livro, feita pelo organizador Felipe Pena.
A seleção dos escritores foi feita com base no que Felipe via na internet ou ouvia em grupos de discussão literária em comparação com a opinião dos críticos especializados. Quem escolheu o conto a ser publicado foram os próprios selecionados, independente de ser inédito ou não.
A pedra fundamental da coletânea é o Manifesto Silvestre , principalmente o artigo terceiro.
3. A ficção brasileira precisa ser acessível a uma parcela maior da população. O que não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. Rejeitamos o rótulo de superficialidade. Escrever fácil é muito difícil.
E no fim das contas a proposta é esta: escrever fácil e embalar os leitores. A edição dos textos foi feita por Ana Cristina Rodrigues e Priscila Corrêa, para quem não sabe a primeira moça é defensora da literatura especulativa nacional e tem conhecimento editorial para este projeto da Record.
Os nomes mais conhecidos foram os que mais deixaram a desejar, fosse por esperar algo diferente das histórias pelas quais ficaram conhecidos ou porque os contos não foram tão envolventes quanto se pretendia de início.  Gosto de ser julgado pelas coisas que gosto, então veremos as minhas partes favoritas. :D

Cirilo S. Lemos, -só tenho lido elogios sobre seus trabalhos -, soube muito bem trabalhar o texto dentro de um futuro cyberpunk nas favelas:  
“Tubarão passava as festas inteirassem seu divã-móvel, entupindo-se de comida e sendo chupado na Realidade Virtual pelas madames esculpidas em bioplástico ávidas por experiências novas ao som da batida hipnótica de variação neofunk do blend e do suyba.”

Teve espaço para uma homenagem à Amy Winehouse através das palavras de Carolina Munhóz:
“E com 27 anos a rainha do jazz pop deixava o mundo em lágrimas.
Um mundo que tento cuidar dela. Que tentou lhe dar amor.
Mas ela teimava em dizer não.
E não. E não.”

Luiz Bras em sua ficção-científica neurodramática (acabei de criar essa expressão) O índio no abismo sou eu, me encantou:
“Antes eu não era nada, agora sou qualquer coisa que não sei bem o que é. Talvez eu seja só a própria eletricidade atravessando uns poucos neurônios.”

Menção honrosa para o humor estabelecido no conto O cão, que me fez dar boas risadas e ao misterioso O escritório de design probabilístico que soube trabalhar com a tensão sem criar um final tosco para a história. Esperava que a autora Andréa del Fuego estivesse presente no livro, mas a crítica é muito mais simpática para com ela.
No fim o resultado foi bem maior do que alguns consideram, não é uma simples resposta a Revista Granta, mas também uma demonstração do que pode ser produzido e muito bem apreciado fora da ‘literatura’.
Todos os direitos autorais foram cedidos para a ONG Ler é dez, leia favela. Uma salva de palma bem merecida aos autores. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Resenha: Instintos Cruéis - Carrie Jones.


                  Uma garota chata melancólica muda-se sem a mãe para uma cidade pequena (fria, nublada e bucólica) nos Estados Unidos onde criaturas lendárias vivem escondendo-se do resto da civilização. É, você já viu essa trama antes em outros incontáveis livros Young Adult de autor@s que seguiram os passos da Saga Crepúsculo, mas diferente da história criada por Stephenie Meyer, essa não funcionou.
                 Zara White é uma jovem que aprecia decorar o nome de todas as fobias existentes, tendo em mente que quando você coloca o nome em algo, isso fica menos assustador. Seu padrasto acabara de falecer e para que não acabe entrando em uma depressão ela é enviada pela mãe para morar com sua avó Betty.
                O contexto órfão/cidade nova, usado por muit@s escritor@s para colocarem a sensação de ‘não pertenço a este lugar’, comum para qualquer jovem – leitor ou não – é usada de forma errada porque a protagonista é cansativa e todos os personagens secundários parecem a mesma pessoa com a voz igual nos diálogos.
              As criaturas da vez são metamorfos transmorfos, lobisomens, Raul Seixas e pixies. Pixie é uma espécie de fada malvada cuja mitologia a autora trabalhou de maneira tão malfeita que no fim não passam de vampiros disfarçados. Aparentemente o rei dos pixies vampiros que soltam pó dourado igual a sininho e caminham na luz do sol perdeu sua rainha e está seguindo Zara, enquanto isso jovens desaparecidos na cidade  servem para saciar a sede de sangue do rei e de sua corte assustadora. As únicas defesas de Zara são o ferro e os metamorfos, protetores naturais dos humanos, blábláblá já vi isso antes. 

                Posso ser chato, mas já vi fadas muito mais originais – Tithe – Fadas ousadas emodernas, Holly Black - ou metamorfos mais legais – Os Instrumentos Mortais, Cassandra Claire. 
                Não só nas coisas inexistentes a autora é restritiva, mas também nas coisas reais como a Anistia Internacional, a ONG que Zara faz parte. Acredito que uma pesquisa mais profunda não faz mal pra ninguém. Outro ponto cansativo é a homenagem que a autora faz para Stephen King, tudo bem que ele é reconhecido mundialmente e nasceu no mesmo estado que ela, mas tem um ponto em que parei e pensei: Ok Carrie, já entendi que você é fã dele, pode prosseguir. Grato.
                A autora coloca coisas óbvias para o leitor e demora páginas desnecessárias para reafirmar certezas explícitas MENOS para a narradora songa-monga. Esse mesmo problema fez com que eu odiasse a série Fallen.   
                Como consumidor tenho um ponto bem negativo para falar quando lembro da Editora Underworld, a preocupação com o design parece muito mais importante que a responsabilidade sobre a tríplice tradução/revisão/copidesque. Já deixei de ler a versão nacional de Frente de Tempestade por encontrar erros na primeira página do livro... e por aí vai.         
                Segue um dos exemplos menos prejudiciais de todo o tomo: “Ah-ham.” Dou um segundinho antes de continuar a falar, porque eu sei que deve ela deve estar...
                O livro tem um fim bacana, original OBRIGADO CTHULHU. Mas é o fim do começo, já que é uma série que não pretendo continuar lendo. Posso ter sido extremamente crítico e deixado de aproveitar a diversão sem compromisso que talvez fosse o interesse final, mas no meu atual perfil de leitor, ‘Instintos Cruéis’ não foi uma obra agradável e sim cansativa. 

sábado, 17 de março de 2012

Os dez melhores livros de 2011

Bem atrasado, diga-se de passagem, mas ainda em tempo de indicar os dez melhores livros que li no ano retrasado. A lista vai de um clássico da literatura brasileira até uma alta-fantasia escrita por um norte-americano. Serve para relembrar a diversão que tive e ficam de dica para os leitores do blog. Boa leitura.


Suzanne Collins – Jogos Vorazes


Ray Bradbury – Fahrenheit 451


Paul Auster – A trilogia de Nova York


Jorge Amado – Capitães da Areia


George Orwell – A Revolução dos Bichos


Gabriel García Márquez – Memórias de minhas putas tristes




G. R. R. Martin – A Guerra dos Tronos



Eric Novello – Neon Azul



Cassandra Clare – A cidade dos ossos





Camila Fernandes – Reino das Névoas




quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Harry Potter Fanfiction: A parte não lida

Numa galáxia distante, muitos e muitos anos atrás um jovem Alex participou de um fã-clube do Harry Potter, chamava-se na época Hogwats Special Club. Esse conto abaixo, assim como sua breve introdução, foi publicado na já não existente revista O Sofista – Especial de Fanfictions em Março de 2005.


A parte não lida


Na página 380 de "Harry Potter e o Cálice de Fogo" vemos o fim de um capítulo em que Olho-Tonto-Moody pega emprestado de Harry o Mapa do Maroto, mas na continuação do livro não encontramos a devolução, por isso resolvi escrever a cena em que isso acontece.


Harry repentinamente esqueceu a ideia de Auror e lembrou-se do Mapa, e se Moody o entregasse para Dumbledore?

Fred e Jorge! O diretor pediria informações. O que responderia sem entregar aqueles que o ajudaram? Levantou-se vagarosa e silenciosamente. Rony dormia virado para a parede. Harry abriu o seu malão, pegou a capa e desceu a torre da Grifinória.

- Hip! Hip! Nick, seu cabeça frouxa! – era Pirraça, mas a sua voz estava do outro lado do corredor ao longe.

Seguiu o corredor, abriu a porta do escritório do Prof. Moody. Seguiu para a escrivaninha, abriu a primeira gaveta. Só tinha alguns pergaminhos em branco. Tentou a segunda gaveta. Estava lá o Mapa. Pegou, fechou as gavetas, deu uma olhada no documento mágico.

Pirraça tinha ido para o Salão Principal e todos os outros estavam nos seus devidos lugares. Fechou a porta em silêncio, ajeitou sua capa e subiu à torre. Teve de acordar a mulher do quadro, entrou e seguiu para o dormitório.

Guardou a capa e escondeu o mapa. Deitou e seus pensamentos, tanto os que lhe traziam o banho com o ovo e a conversa de Snape com Filch viraram sonho.