segunda-feira, 12 de julho de 2010

Os Temores Proféticos de Samuel Benedetti

Alex Bastos

Para Fabiano Rezende

Porque aquilo que temia me sobreveio; e o que receava me aconteceu.

Nunca estive tranquilo, nem sosseguei, nem repousei, mas veio sobre mim a perturbação.”

Livro de Jó 3:25-26

Minha vida pode ser resumida em poucas palavras – ou em muitas, se o leitor gostar de monotonia. Meu nome é Samuel Benedetti e meu atual estado mental se deve aos fatos que ocorreram durante o tempo em que trabalhei com um misterioso advogado.

Aos dezoito anos, eu era um perdedor e tinha consciência disso. Sabia que os demais me achavam estranho, mas não os culpo; minha permanente apatia pelo mundo real incomodava todos os que ansiavam por desfrutar as aventuras inexistentes da Terra.

Nunca me achei bonito, inteligente ou engraçado. Mesmo assim, consegui uma namorada que transbordava beleza. Ela era a única coisa que atraía todo o meu interesse; chama-se Amanda, dona de cabelos que parecem cascatas de ouro e olhos profundos e azuis.

Fui pressionado por meus pais a entrar na faculdade, e cedi. Estava na segunda fase do curso de Direito quando decide correr atrás de meus planos; acreditava ter maturidade suficiente para torná-los reais. Assim que terminou o ano – já estando apto à terceira fase –, comecei a procura.

Por fim, antes mesmo de poder perder muito tempo com esse assunto, um dos meus professores disse que conhecia alguém que, além de precisar de um estudante como eu, poderia me levar ao caminho de sucesso dentro do disputado mundo dos advogados – dos bons, pelo menos.

Recebi um cartão simplório; trazia o nome, o telefone e o endereço. Por dois dias seguidos fiquei repetindo o estranho nome: Johan Bouvier.

Na primeira vez em que fui conhecer o Sr. Johan, deparei-me com portas fechadas.

Na segunda, ele próprio atendeu a porta. Alto, magro, poucos fios de cabelo, pálido, olhos fundos e com olheiras.

Passamos pela bela sala de espera e fomos para seu escritório. As paredes eram todas recobertas de prateleiras de madeira antiga; nelas vislumbrei tomos dos mais variados títulos, pequenas obras de arte e algumas poucas fotos em preto e branco. A luz solar era filtrada por cortinas amareladas.

Passamos algumas horas falando sobre interesses mútuos, sobre deveres e obrigações de ambas as partes. Ele trabalhava na defesa de assassinos, era experiente nessa área e reconhecido por isso.

Fui embora com a promessa de retornar na semana seguinte. Trabalharia à princípio como um secretário; ele disse que tinha muitos documentos para organizar e o mesmo tanto para passar para dentro do computador, algo que ele não tinha a mínima ideia de como fazer. Soou estranho para mim.

Cada gênio com sua mania, pensei na época.

Comecei com o pé direito. Johan não tinha economizado quando decidiu organizar um espaço para mim. No fim da grande sala de espera estava montado um computador de última geração sobre um balcão de madeira, igual ao do escritório dele.

Senti-me um pouco estranho no início. Johan passava horas e horas fechado em silêncio, ou o mesmo período conversando com assassinos.

O trabalho aumentava cada dia mais. Johan trazia caixas e mais caixas de documentos impressos, digitados, notas sobre processos, fotos, assinaturas, provas, pastas e vídeos. Alguns, creio, eram de quando ele tinha começado na profissão.

Muitas vezes senti dúvidas quanto a como arquivar ou que programa usar, mas o acesso ilimitado a internet foi a melhor coisa que ele poderia ter feito para facilitar o serviço e afastar minhas dúvidas.

O telefone não tocava com a frequência que à princípio eu imaginara, mas o carteiro parecia complementar esse trabalho. Não havia um dia sequer sem que o Sr. Johan recebesse correspondência, ou as enviasse.

Fui encarregado de trabalho de banco e pelas idas aos correios.

Essa correspondência acordou em mim algo que eu não deveria ter usado naquele momento. A curiosidade.

Com o passar dos dias, notei que a maioria das cartas – recebidas e enviadas para diferentes estados e outros países – tinham uma coisa em comum. Os remetentes eram sempre Sociedade R’lyeh.

Eu organizava as encomendas por tamanho antes de bater na porta do chefe e entregá-las sorrindo.

“O que é a Sociedade R’lyeh?”

Johan pensou por um momento sem alterar as feições faciais.

“É um grupo de amigos advogados.”

“Entendo.”

E ele puxou com força as cartas de minha mão. Pela primeira vez.

Na semana seguinte as cartas chegaram normalmente, mas nenhuma era da Sociedade R’lyeh. Ele também havia parado de enviá-las.

“Você está se dando bem com seu chefe?”

Eu estava com a cabeça sobre o colo de Amanda. Quando podia, passava na casa dela depois do trabalho – tinha que aproveitar as férias.

“Sim, mas aconteceu algo diferente. Ele recebia e enviava várias cartas, e todas tinham o mesmo remetente. Sociedade R’lyeh.”

“Conheço esse nome de algum lugar.”, afirmou enquanto coçava minha cabeça. Amanda sabia muita coisa, gastava todo o tempo livre lendo. Lia como se dependesse daquilo para viver. De certa forma, eu admirava seu gosto.

“Ele disse que é um grupo de amigos advogados. Mas o estranho é que depois que eu perguntei o que era essa sociedade elas pararam de chegar e ele parou de enviá-las”

“Talvez ele seja excêntrico, mas antes de ir embora escreve o nome em um papel que depois eu vejo.”

“Ok.”

Eu já estava a ponto de esquecer completamente o caso de R’lyeh quando Amanda ligou-me durante uma tarde chuvosa. Não havia ninguém na sala de espera, então atendi ao telefone com tranquilidade.

“Achei informações sobre R’lyeh. Passa aqui em casa que eu te mostro.”

Naquela noite Amanda apresentou-me as obras do escritor Howard Philips Lovecraft, famoso por seu trabalho com o terror e suspense e por ter uma mitologia própria. Ela tinha dois livros dele.

R’lyeh não passava de uma cidade gigantesca, onde morava um “deus extraterrestre” conhecido como Cthulhu.

Havia muitas outras coisas estranhas como os “Antigos”, Shoggoths e o Necronomicon.

“Ele realmente tinha uma mente perturbada.”, comentou ela antes de me beijar.

Chegamos à conclusão que Johan fazia parte de um clube de leitores de H.P. Lovecraft, e havia ficado envergonhado com isto. Não vi motivos para tal.

As coisas correram bem no mês seguinte; cada vez mais notei que ganhava a confiança de Johan, apesar de termos desenvolvido apenas uma amizade superficial. Não me importava.

Um dia, ele me pediu para fechar o contrato de aluguel de um barracão, que eu conseguisse pessoas para limpá-lo e cento e vinte cadeiras.

Saí com meu carro para conversar com o dono das cadeiras e o resto foi mais fácil. Fiz tudo com rapidez, como dizem: ‘a dinheiro exibido, tudo é permitido’.

Mas a curiosidade voltou.

Curiosidade.

Maldita.

Quando voltei para o trabalho, Johan não estava mais e tinha esquecido a porta do escritório aberta.

Na mesa dele havia uma escultura. Horrível, nunca havia visto antes.

Era, na verdade, um Cthulhu em miniatura. Um ser esverdeado dotado de asas com serrilhamento nas bordas, mãos fortes e cinco tentáculos que lhe saiam da cabeça cefalópode. Ele sentava-se sobre um trono com ar de rei e olhar de demônio.

Os pelos do meu pescoço ficaram eriçados.

Fechei a porta do escritório e encontrei na minha mesa um bilhete de Johan, queria que eu passasse na casa dele para entregar a chave do barracão alugado.

O locador enviou-a por um motoboy. Ele não esperava sair antes que a chave fosse entregue, mas foi necessário.

Não demorou muito e ouvi a moto parando do lado de fora do prédio.

Quando ele atravessou a porta eu já estava postado ao lado do alarme, preparado para ligá-lo, passar a chave na porta e partir.

“Olha o que encontrei caído ali na porta.”

Ele estendeu uma carta, reconhecia-a imediatamente. Amassada e suja, mas reconhecível.

Coloquei-a dentro do meu bolso.

Eu pressentia que algo estava errado durante todo o caminho. Minha avó geralmente tinha sonhos proféticos, nada que interferisse em nosso dia-a-dia.

Dirigi até a mansão de Johan. Estacionei na frente dos portões de entrada.

Peguei a chave no banco do passageiro.

Aconteceu.

Os meus olhos não viam mais os portões, mas sim uma cidade ciclópica. Gigante em todos os aspectos, com formatos inimagináveis, símbolos nunca vistos e grandes espaços preenchidos por água.

O cheiro salgado e inigualável de mar era forte; o vento percorria as tenebrosas fundações de R’lyeh murmurando.

Tive certeza que era a cidade de Cthulhu. Senti sua presença adormecida em algum lugar, mas existente e pulsante.

Ouvi vozes humanas, todos falando em inglês. Tranquilamente compreensíveis para mim.

Meu corpo não estava lá, apenas minha consciência. Flutuei pela cidade, seguindo as vozes. Encontrei os donos das vozes, um grupo de homens carregando equipamentos. Johan estava lá.

Era o chefe da missão.

Os outros eram membros da Sociedade R’lyeh.

A cidade transformou-se em meu carro, os portões e a mansão. A chave continuava em minha mão.

Não desconfie em momento nenhum que a experiência tinha sido verdadeira. Havia visto desenhos de R’lyeh, baseados nos contos de H. P. Lovecraft, mas nada tão profundo quanto a realidade aterrorizante que tomou o controle de minha mente.

Antes que alguém me visse ali voltei para o centro da cidade o mais rápido possível. Tirei uma segunda cópia da chave.

Abri a carta, e li.

Caro Mestre,

A tradução do Necronomicon está sendo finalizada pelo escolhido. A cópia falsa do livro trocada pelo curador do Bibliotheque Nationale ainda não foi e nem será descoberta.

O livro será dividido entre os participantes da Sociedade. Sabemos do poder do livro e não queremos pisar no solo da loucura. Ao final das leituras individuais, cada

um deverá resumir com suas próprias palavras a parte lida e enviar para os demais membros.

Não está morto o que pode eternamente jazer e

com eras estranhas a morte há de morrer.

A carta datava de dois meses. Fora enviada do estado de Santa Catarina.

O que quer que tivesse sido traduzido, já fora feito.

Fui até a casa de Johan. Com o empregado dele deixei apenas a chave verdadeira do barracão. Pisei no acelerador e rumei para a casa de Amanda. Ela estava sozinha.

Primeiro fizemos amor, uma forma inútil de tentar esquecer a visão, a carta e meus temores. Depois de aproveitar as belas curvas do corpo de Amanda, conversei com ela francamente, ocultando a parte da visão.

Mostrei a carta; ela não achou correto eu ter lido, mas também não me repreendeu.

“A história de Cthulhu e do Necronomicon são totalmente literárias. Não existem de maneira alguma. H. P. Lovecraft misturou alguns livros reais e alguns imaginários para tornar mais verdadeiro seus contos.”

“E de certa forma isso contribuiu para que as histórias dele ficassem conhecidas.”, finalizei.

“Isso mesmo.”

“Além do mais, se o Necronomicon existisse e alguém o traduzisse sozinho, provavelmente enlouqueceria.”

Mudei de assunto. Não adiantaria.

Johan parecia muito feliz no dia seguinte, e quando entrei no seu escritório não havia vestígios da feia estátua.

“Amanhã eu não trabalharei; você está dispensado, também.”

“Sem problemas.”

Voltei a fazer meu serviço, mas a chave em meu bolso parecia arder.

Eu tinha que fazer alguma coisa. A palavra Apocalipse parecia ser murmurada em meus ouvidos o tempo todo.

Mas não tinha ideia do que fazer.

Antes de sair, fiz uma pesquisa em um site de busca. Usei duas palavras: Tradutor louco.

A maioria dos tópicos era de quinze dias atrás.

Tradutor Kevin Carareto suicidou-se hoje pela manhã.

Um dos mais famosos especialistas em tradução, Kevin Carareto, conhecido por sua fluência e estudo nas mais variadas línguas antigas suicidou-se hoje por volta das sete horas da manhã.

“Ele estava trabalhando em um projeto o qual não quis divulgar; não sabemos se chegou a terminar. O fato é que ele surtou e infelizmente cometeu suicídio.”, informou um colega da Universidade de Miskatonic.

Lamentamos esse acontecido e desejamos os pêsames à família.

Você pode conferir a lista de livros escritos e traduzidos por Kevin Carareto clicando aqui.

Antes de dormir li o conto “O Chamado de Cthulhu”, não restavam dúvidas. De certa forma, eu sabia que H. P. Lovecraft não criara aquilo, ele apenas repassou informações verdadeiras, de uma maneira menos idiota.

Minha noite foi tragada por um pesadelo. As pessoas tinham tornado-se cefalópodes-humanóides. Emitiam sons afogados e consumiam os dias em adorações, cânticos e meditações para Cthulhu.

Era um pesadelo profético, e eu o profeta perturbado.

Às sete da manhã, estava estacionado, com o carro de um amigo, próximo à mansão dele. Por volta das oito ele saiu sozinho dentro do Camaro negro. Segui-o de longe, e sabia que ele estava indo para o barracão.

Cortei caminho para chegar antes e me esconder lá. O prédio tinha uma iluminação decadente; as cadeiras estavam lá, assim como a estátua do Deus-extraterrestre sobre um altar improvisado.

Escondi-me no segundo andar não acabado atrás de sacos de cimento vencido. Coloquei toda a minha esperança em que não me encontrassem.

Johan entrou no prédio carregando um notebook Apple, um retroprojetor e algumas extensões. A farsa havia terminado, pelo menos para mim.

Ele ligou o notebook com as extensões e passou a testar o retroprojetor na imensa parede pintada com cal branca. Tudo ali cheirava a mofo.

Aos poucos os membros da Sociedade R’lyeh chegavam. Adoradores de Cthulhu e servos de Johan Bouvier. Nenhum trazia traços de pobreza, simplicidade ou tristeza.

Todos sorriam e cumprimentavam-se como no fim da missa de Natal. Exceto, é claro, as várias línguas pronunciadas que se misturavam no ar.

Johan iniciou o encontro mostrando um vídeo através do retroprojetor. O vídeo da expedição à R’lyeh, a visão que eu tivera. Eles invadiram gravando o espaço onde Cthulhu repousava, mostraram todo o seu corpo gosmento de aspecto milenar enquanto retiraram amostras superficiais de pele, gosma e garras.

Ele falou muito mais depois do vídeo e outros intercalaram a palestra.

“Reajustamos com nossos colegas de laboratório as células de nosso Deus.”, disse um dos cientistas.

“E finalmente nos tornaremos a imagem e semelhança dele.”, falou Johan.

Duas pessoas atravessaram o corredor entre as cadeiras, todas lotadas agora, empurrando um carrinho cheio de instrumentos que não consegui ver bem. Em pouco tempo, o próprio Johan tirou a roupa, trocando-a por um pijama simples – aparentemente não ficando nem um pouco envergonhado.

Primeiro ele engoliu um comprimido, e os outros dois homens que tinham empurrado o carrinho injetaram em seu braço uma ampola de um líquido amarelado.

Não aconteceu nada.

Até que ele caiu, subitamente.

Os médicos presentes quase levaram as cadeiras junto em prol de ajudar o Mestre.

Mas antes que pudessem erguê-lo ele tinha se posto de pé. Os olhos eram dois pontos completamente amarelos e leitosos.

Houve sussurros, até que ele começou a transformar-se. Primeiro a camiseta rasgou-se e ele se virou para mostrar no novo par de asas adquirido, a pele rasgada sangrava manchando o chão.

Esperei que o corpo ficasse esverdeado, mas não aconteceu.

O pomo de adão pareceu derreter dentro do pescoço,

O crânio sofreu alterações enquanto ele gritava em plenos pulmões. Os convidados da festa agora começaram a demonstrar preocupação. O cabelo caiu completamente enquanto os poros produziam o líquido viscoso que molhava as calças e pingava entre os dedos que estavam mais pontudos que antes.

Os tentáculos brotaram, onde antes havia existido uma barba rala.

Cinco tentáculos formados de pele flexível.

Uma mulher gritou de emoção e bateu palmas de felicidade.

“A vacina poderá ser feita em cada pessoa que conhecemos.”, concluiu um outro.

“Na verdade será mais simples se colocarmos na água, demora um pouco mais, porém tem o mesmo efeito final.”, informou o cientista que havia aplicado a injeção.

Eu tinha perdido a parte onde ser humano era doença.

Não esperei muito, antes de pegar o celular e mandar uma mensagem pedindo para Amanda vir o mais rápido possível meu ajudar. Eu havia deixado o meu carro na casa dela, que ficava mais próxima. Sabia que iria precisar.

Mas ela não veio.

Enquanto isso, mais um dos presentes transformava-se em imitações de Cthulhu, para grande exultação dos demais.

Esperei um pouco.

Amanda não chegou.

Liguei para o celular, a mensagem dizia que número não existia.

Decidi sair por mim mesmo dali; a porta estava fechada, mas não trancada.

Desci as escadas e fui para a porta. Porém, cometi o mesmo erro da mulher de Ló: olhei para trás.

Não entendi o significado dos grunhidos que o novo Johan dera, mas a tradução foi simultânea. PEGUEM-NO.

Corri e me escondi. Eles me encontraram.

Sedaram-me e quando acordei estava deitado sobre o catre de uma prisão abandonada.

Com um pedaço do espelho quebrado que encontrei sobre a pia consegui visualizar parte do corredor e de um corpo, meio humano, meio Cthulhu apodrecendo. O espelho caiu.

O fedor chegou ao meu nariz.

Voltei a deitar, com fraqueza e dor.

O celular continuava dentro do bolso da minha calça. Pela data fazia três dias que eu estava sendo sedado.

Liguei para todos os celulares que tinham em minha agenda, os poucos que atendiam limitavam-se em emitir os sons precários da linguagem que eu ouvira Johan falar depois da transformação.

A foto de proteção de tela mostrava uma árvore, onde antes existia Amanda em frente à árvore.

Procurei as fotos que tinha dela. Onde era para Amanda aparecer não havia ninguém. Eu estava sozinho nas imagens, beijando o vento e abraçando o invisível.

Gritei, desejando que minhas cordas vocais se partissem.

Joguei o aparelho na parede, vendo as partes caírem.

Uma das mulheres que estava no barracão veio ao meu encontro. Abriu a cela e sentou-se aos meus pés, trouxe água e comida.

Conversamos, ela tinha um revólver.

Contou-me que todos os demais humanos estavam aos poucos transmutando-se através da água com a solução especial. Quem não aceitava era caçado e morto; aparentemente a carne de humanos puros havia tornado-se um ótimo aperitivo.

Deu-me uma página do Necronomicon traduzida. Eu li e chorei.

A alma de Cthulhu estava dentro do corpo adormecido, que tinha limitações, mas poderia habitar outra casca enquanto o corpo descansava.

A casca era eu.

Johan tinha me dado este privilégio, entre todos os demais.

Foi como ser o primeiro judeu que Hitler odiou.

Apenas chorei.

Agora termino meu breve relato. Posso ouvir nitidamente o som dos aviões criados para transportar o corpo de Cthulhu; vão guardá-lo em algum lugar próximo. Não tenho dúvidas de que vou ser possuído por sua alma podre e não acredito que voltarei a viver depois dessa experiência.

Em até certo ponto desejei ter sido um humano-cefalópodo, mas quem sentiria a transformação seria o próprio Chutlhu.

Penso se Amanda realmente existiu ou foi obra de minha imaginação, agora mais perturbada que antes...

Espero que este texto chegue nas mãos de pessoas que não tenham sucumbido ao poder dos Servos de Cthulhu e que consigam de alguma forma reverter este apocalipse alienígena nunca imaginado por outros, apenas por mim.

Samuel Benedetti,

com fé.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Homem Faminto

Isaac Marion

Carl estava sempre faminto. Ele comia mais do que qualquer um que já tivesse conhecido e desejava cada refeição como se não tivesse comido em semanas. A cada ano ele ficava um pouco mais esfomeado. Ele tinha fome quando era criança, mas nada perto do que ele sentiria mais tarde.

Carl era pobre. Ele vivia em um apartamento sujo em uma vizinhança suja onde pessoas sujas faziam coisas sujas e todas as janelas possuíam grades. Ele tinha vivido neste bairro toda a sua vida. Quando era criança brincava nas ruas porque sua mãe nunca disse para não o fazê-lo. Ela nunca o avisou para olhar para os dois lados da rua, lavar atrás das orelhas ou não falar com estranhos porque eram coisas que ela simplesmente não tinha noção. Ela sempre tinha em mente álcool, drogas, dinheiro e cigarros e muito raramente pensava em Carl, então ele ia para a cama quase todas as noites sem ter jantado. Quando sua mãe o alimentava era com carne enlatada, hambúrgueres e produtos do Homem Faminto Alimentos Congelados porque ela não sabia que aquilo não era saudável e também porque ela não ligava para essas coisas. Carl ingeria tudo isso com litros e litros de refrigerante, apesar de sempre ter desejado poder comer alimentos saudáveis, mesmo que não soubesse como era o sabor deles. Às vezes quando estava sentado na clínica com sua mãe porque ela tinha ficado doente novamente, ele pegava a revista de alimentos e olhava para as imagens de medalhões de carne com bacon, risoto de cogumelo selvagem e creme brulee de laranja, olhava para elas e salivava como um monstro.

Quando Carl era adolescente sua mãe fora presa pelo uso de drogas e ele fora enviado para um lar adotivo. Uma vez por semana uma mulher chamada Sherry vinha para esta casa conversar com Carl. Sherry interrogava Carl com um monte de perguntas difíceis: ‘como você está se sentindo’ e ‘o que estava fazendo’ ou se os pais adotivos estavam sendo legais com ele. De primeira Carl não queria falar com Sherry, mas ela era linda e ele tinha uma quedinha por ela, então decidiu falar sobre algumas coisas, que ele estava se sentindo bem, os pais adotivos eram legais e que ele não estava fazendo nada. Então contou que estava faminto. Ela disse que estavam quase terminando e que depois poderia ir jantar, ele disse não, sua fome nunca terminava.

Mesmo sabendo que sua mãe não era legal Carl sentia saudade dela. Esqueceu que ela não era boa e apenas lembrou que era sua mãe, então desejou que ela fugisse da cadeia para que pudessem morar junto de novo. Quando Sherry conversava com Carl, ele fazia muitos pedidos. Queria que trouxesse sua mãe de volta, deixassem ambos sozinhos para que ela pudesse beijá-lo. Desejar todas essas coisas deixou-o com fome, então foi para a cozinha começar a comer. Seus pais adotivos ficaram um bom tempo observando-o comer porque ele comeu cinco sanduiches e uma pizza inteira.

Quando Carl estava na oitava série sua mãe saiu da prisão e Sherry agendou para eles visitas semanais. Carl encontrou sua mãe em uma pequena sala branca com uma mesa e cadeiras, eles sentaram lá e murmuraram um para o outro enquanto Sherry tomava notas em seu notebook. Carl desejou ter um também. Desejou que sua mãe dissesse que o amava. Desejou que ela tivesse trazido comida.

Quando a visita acabou a mãe de Carl não lhe deu um abraço e quando Sherry o levou nas visitas seguintes ela não estava lá. Carl e Sherry sentaram na sala e esperaram por uma hora, mas ela não apareceu, e na semana seguinte a mesma coisa. Então as visitas foram canceladas e depois de poucos meses a corte decidiu que a mãe de Carl nãoseria mais sua mãe. Ele continuou vivendo no lar adotivo até o dia em que ele ficou tão malvado que eles o chutaram para fora. Carl matou o gato do seu pai adotivo e o comeu. Ninguém podia imaginar o porquê dele ter feito isso, nem os pais, nem Sherry e nenhum dos conselheiros dela conseguiram saber por que tudo que Carl respondia a eles era que estava faminto.

Finalmente Carl virou um adulto e não poderia viver mais em lares adotivos, mesmo que se comportasse bem e não comesse coisas que outras pessoas não comiam. Ele conseguiu um emprego em um restaurante fast food, onde tirava algumas mordidas dos pedidos antes de servir para os clientes porque a hora do almoço demorava muito e ele não conseguia se controlar. O velho Carl estava mais faminto que antes e quando completou vinte e um anos estava tão esfomeado que só conseguia comprar comida. Ele era exatamente tão pobre quanto sua mãe fora e ainda morava no mesmo bairro sujo onde não havia bons empregos e todo mundo roubava de todos. Ele continuaria ali porque não sabia como sair. Precisava de todo o dinheiro do mundo pra comprar comida.

Apesar de comer mais do que qualquer um que conhecia Carl não ficava gordo. Ele era esquelético. Se respirasse fundo todas as suas costelas apareciam e quando flexionava os músculos nada acontecia. Às vezes ele comia três ou quatro refeições no lugar de uma. Comeria até sentir se cheio e então continuaria comendo até se sentir mal porque mesmo que seu estômago dissesse para parar, sua boca dizia para continuar comendo. Sua boca sempre tivera mais fome do que seu estômago.

Aos vinte e três anos Carl estava gastando mais em comida do que em qualquer outra coisa em sua vida. Gastava mais do que ganhava no trabalho, então pediu empréstimos em uma loja de financiamentos para poder comprar comida. Carl não sabia que era muito estranho comer cinco Homem Faminto Refeição Congelada no almoço e seis na janta, mas eventualmente seus amigos disseram que isso não era normal e que ele deveria ir ao médico.

Carl nunca for ao médico desde que sua mãe fora presa apesar de ficar doente com frequência. Não poderia pagar por uma consulta porque precisava de todo o dinheiro para comprar comida. Mesmo tendo vinte e três anos agora e sem estar em um lar adotivo, decidiu ligar para Sherry.

Sherry ficou confusa porque fazia muitos anos e supostamente Carl não deveria ligar mais, mas relembrando dele e lembrando que ele era um bom garoto e apesar de ter comido o gato, ela disse como ele deveria proceder para que o Estado pagasse a consulta médica. Mas quando encontrou o médico, nada de errado pode ser encontrado. O médico apenas disse que ele tinha um metabolismo rápido. Carl perguntou o que isso significava, o médico respondeu ‘significa que você é apenas faminto’. Então Carl foi para casa e comeu três Homem Faminto Refeição Congelada e ligou para o escritório de Sherry, mesmo sabendo que era tarde da noite. Quando a secretária eletrônica atendeu ele apenas suspirou por um tempo e ouviu o som de sua própria respiração.

Depois de alguns anos Carl tinha uma grande dívida e estava comendo mais do que nunca. Parecia que ele não sobreviveria mais um ano, mas então um dia ele ganhou na loteria. Não era realmente a loteria. Um homem rico o atropelou com o carro e quebrou suas pernas. Porque o homem rico estava bêbado, seus advogados deram a Carl um enorme cheque, suficiente para comprar comida por muitos anos, desde que Carl não pudesse mais andar, tudo o que ele poderia fazer era ficar sentado em sua sala de estar e comer, o que era tudo o que ele sempre quisera.

Quando o homem rico quebrou suas pernas Carl soube que finalmente sua sorte havia melhorado. Quando isso aconteceu ele caiu de costas e ficou olhando para o céu. O homem rico estava em pé sobre ele resmungando que sentia muito, ele sentia muito, mas Carl não estava escutando. O céu estava negro e havia estrelas brilhantes nele, mas havia muito mais escuridão do que estrelas. A escuridão era parecida com como Carl se sentia quando estava faminto. Sabia que tinha sido atropelado por um carro e provavelmente estava delirando, mas pensou ter ouvido um estrondo vindo da escuridão. Um ronco raivoso como um profundo e escuro estômago na vastidão do espaço o fez se perguntar se talvez houvesse coisas lá em cima tão famintas quanto ele.

A noite depois que ele ganhou o cheque do homem rico, assistir televisão era algo diferente. Quando a televisão mostrou bifes e caudas de lagostas ele sabia que poderia pagar por aquilo se quisesse. Quando apareceram roupas bonitas, sabia que poderia comprar aquilo também. Mesmo quando a televisão mostrou outras televisões maiores, sabia que poderia comprá-las. Mas havia coisas na televisão como carros, viagens e mulheres bonitas que ele ainda não poderia ter, então ele comeu mais dois Homem Faminto Refeição Congelada e foi dormir. Acordou no meio da noite com dor no estômago e teve que comer de novo.

Agora ele era menos pobre, poderia finalmente comer boa comida. Parou de comer cheeseburgers e comida congelada e começou a comprar bifes e caudas de lagosta. Foi a alguns bons restaurantes onde eles serviam risoto de cogumelo selvagem e creme brulee, quando eles trouxeram os pratos ele ficou pasmo com o tamanho mínimo deles. Aquilo era para bebês. Teria que comer dúzias daquilo para poder se saciar. Centenas. Então parou de ir nesses restaurantes e usou todo o dinheiro para comprar bifes e caudas de lagosta. Finalmente parou de comprar isso e começou a comprar cheeseburgers e comida congelada de novo, porque ele percebeu que não importava o que comia, precisava apenas comer.

As pernas de Carl melhoraram muito lentamente e o médico disse que levaria um grande período de tempo para que ele pudesse andar novamente, então Carl sentou em sua cadeira de rodas na sala de estar sentindo-se muito solitário. Ele pedia toda a comida pelo telefone e nunca saia de casa. Ele não poderia ficar em pé para se limpar e assim começou a feder. Geralmente não conseguia aguentar o seu próprio cheiro então girou as rodas da cadeira para o jardim da frente onde ventava. Fechou os olhos e deixou que o vento soprasse seu fedor pra longe e quando olhou para o céu claro e limpo deu-se conta de que era assim que se sentia por dentro.

Carl ligou para o escritório de Sherry. Ela lhe disse que não era bom que ele lhe ligasse. Ele disse para ela que estava se sentindo mal e que precisava de alguém pra conversar. Falou que não poderia resolver isso, mas que iria lhe dar o número de um dos conselheiros. Ele disse não, apenas ela resolveria. Sherry desligou o telefone.

Carl olhou para o gramado. Para a grama. Tinha almoçado cinco minutos atrás e já se sentia faminto de novo. Ultimamente sentia fome logo depois de ter comido. Quando a comida caia em seu estômago ele se sentia bem e sem fome, mas instantaneamente voltava a sentir frio e a dor voltava. Era como se tivesse um buraco dentro do estômago e não importava quanta comida despejava ali, tudo escoava imediatamente.

Carl afundou seus dedos na grama. Arrancou um naco de gramíneas escuras e lodosas com raiz e minhocas. Colocou aquilo na boca e comeu.

Um ano depois as pernas de Carl ainda estavam quebradas. O médico disse que elas já deviam estar curadas agora e que Carl devia estar fazendo algo errado. Carl disse que não estava fazendo nada de errado, mas o médico disse que era culpa de Carl e o mandou de novo para casa. Carl não podia andar, não podia trabalhar, não podia ganhar dinheiro, então depois de alguns anos ele ficou pobre de novo.

Quando o dinheiro acabou e a comida também e ele estava muitíssimo faminto Carl foi ao escritório do governo conseguir tickets de alimentação. Esperou em uma longa fila com dúzias de outras pessoas pobres enquanto os policiais ficavam na esquina os observando. Depois de esperar por muito tempo Carl percebeu que não era o único em cadeiras de rodas ali. Havia mais quatro pessoas como ele, elas pareciam tristes, solitárias e famintas. De repente Carl sentiu-se mais esfomeado do que nunca. Sua fome era tanta que ele precisava comer algo, então ele agarrou a mulher que estava em sua frente na para comer os seus dedos. A mulher gritou e quando um dos policiais veio impedir Carl de comer os dedos da mulher, Carl tentou comer os dedos do policial.

Carl foi preso. Policiais, advogados e conselheiros fizeram perguntas do porque tentar comer os dedos da mulher, mas tudo ele respondia era que tinha fome.

No fim decidiram que Carl era maluco. Eles o internaram em uma clínica psiquiátrica e Carl sentou em sua cadeira de rodas em uma pequena sala branca enquanto os médicos e conselheiros faziam um interrogatório. Mas eram as mesmas perguntas que os advogados e os policias tinham feito antes, ele não os respondeu. Não disse uma palavra se quer, apenas ficou ali sentado fixando os olhar nas paredes brancas da sala branca. As paredes eram completamente pálidas e mesmo pensando em diferentes cores elas lembravam a Carl a escuridão do espaço que relembrava o sentimento de fome, que era como ele se sentia o tempo todo, mesmo enquanto comia.

As pessoas da clínica psiquiátrica começaram a notar que Carl tinha algo de estranho. Algo mais estranho do que os outros pacientes. Notaram que Carl nunca ia ao banheiro.

Primeiro pensaram que ele estava constipado. Depois de uma semana perceberam que ele não tinha ido nenhuma vez. Ninguém podia entender isso porque Carl comia mais do que qualquer outro paciente. Logo depois do café da manhã ele gritava que estava com fome e quando davam mais comida ele comia e logo depois gritava que ainda estava com fome. Antes da hora do almoço Carl tinha acabado com quatro refeições. Então ele almoçava e comia mais quatro refeições antes da janta. Carl estava comendo onze refeições por dia e nunca ia ao banheiro. Ele estava tão esquelético que suas costelas eram visíveis mesmo quando não estava respirando.

Quando as pessoas da clínica perceberam quão estranho Carl era ligaram para muitos médicos e cientistas. Eles o examinaram por dias e dias, mas não conseguiram descobrir o que acontecia dentro de Carl. Tiraram raios x do estômago de Carl enquanto ele estava comendo e viam a comida desaparecer lentamente. Decidiram que ele estava digerindo a comida, o que era normal, mas ele digeria tudo, o que era estranho. Nada ficava para trás quando ele fazia a digestão, esse era o motivo de nunca ter ido ao banheiro. Isso confundiu os médicos e cientistas, a pior dúvida era pra onde tudo isso ia. Porque Carl continuava emagrecendo.

Quanto mais Carl comia mais ele emagrecia, e quanto mais magro ficava mais médicos e cientistas vinham para estudá-lo e fazer perguntas. Eram sempre as mesmas perguntas, sempre e sempre, então Carl não respondia nenhuma delas. Depois de ficar sentado na sala branca em silêncio as pessoas o espetaram com agulhas e o encheram de tubos, Carl se sentia tão solitário e faminto que pediu para conversar com Sherry. Os médicos e cientistas disseram que ele não poderia falar com Sherry, mas Carl disse que só responderia as perguntas se elas fossem feitas por ela. Eles disseram sim e trouxeram Sherry para a sala branca.

Sherry sentou em uma cadeira na frente de Carl. Havia tantos tubos e fios saindo de Carl que era difícil acreditar que ele ainda estivesse vivo. Sherry perguntou o porquê de Carl querer vê-la e ele pediu para que todos os médicos e cientistas os deixassem a sós. Eles disseram que não poderiam fazer isso, Carl disse que enquanto eles não saíssem não falaria com Sherry. Os médicos e cientistas se encararam, sussurraram e decidiram prender Carl em uma camisa de força com todos os tubos e fios saindo pela gola. Uma vez com Carl preso e sem poder se mover eles saíram deixando o sozinho com Sherry na sala branca.

Carl olhou para Sherry. Sherry perguntou o que Carl queria com ela. Carl olhou para Sherry. Sherry perguntou por que ele estava olhando para ela e Carl disse que era porque ela era bonita. Ela disse que não era bom que ele dissesse isso. Carl disse que ela também era legal. E esse era o motivo dele querer falar com ela, porque ela era simpática e tinha sido legal quando ninguém mais tinha sido, nem mesmo sua mãe.

Sherry perguntou para Carl se ele estava pronto para responder as perguntas que os médicos e cientistas estavam fazendo. Carl encarou Sherry. Sherry iniciou o questionário. O estômago de Carl roncou.

Todos os médicos e cientistas estavam em pé do lado de fora da sala branca esperando. Esperaram por dez minutos e bateram na porta dizendo que iriam entrar. Mas quando abriram a porta ficaram confusos, Carl estava sozinho. Sherry não estava mais ali. Ela tinha desaparecido.

Todos perguntaram a Carl o que havia acontecido com Sherry, mas ele não respondeu. Carl apenas sentou na cadeira de rodas em sua camisa de força com tubos e fios saindo pela gola e olhou para as paredes brancas. Eles continuaram fazendo perguntas, Carl disse que só diria onde Sherry havia ido se trouxessem sua mãe ali. Eles falaram que não sabiam onde sua mãe estava, mas Carl insistiu e sentencio que a única pessoal com que ele falaria sobre Sherry seria sua mãe. Os médicos e cientistas disseram para os policiais encontraram a mãe de Carl porque eles temiam que algo de mal tivesse acontecido com Sherry e estavam com muito medo de Carl.

A polícia levou muito tempo para encontrar a mãe de Carl porque ela estava morando em um prédio abandonado onde se drogava com outras pessoas e não tinha emprego, telefone ou carteira de motorista. A mãe de Carl tinha muita fome. Quando a polícia pediu para que ela fosse falar com Carl ela rejeitou, mas aceitou porque eles ofereceram comida em troca. Então eles deram a ela um cheeseburger e a levaram para a sala branca.

Carl olhou para sua mãe. Ela parecia muito mais velha do que ele lembrava. Carl disse oi para sua mãe e perguntou como ela estava, mas ela não respondeu. Ela não foi nada simpática para com Carl, não disse como estava ou o quanto o amava, apenas perguntou o que ele queria. Mesmo sabendo que a sala estava cheia de gente e todo mundo estava olhando para ele, Carl sentia se sozinho. Ele sentiu-se tão solitário que uma lágrima surgiu em seu olho, mas ninguém viu isso acontecer porque estavam olhando para as telas dos computadores ou para os equipamentos de onde saiam os tubos e fios que agora estavam em Carl. Então ninguém notou a lágrima voltar para dentro de Carl, o que teria salvado a todos de uma surpresa desagradável, apenas se tivessem prestado atenção.

Carl disse para os médicos, cientistas e policiais para abandonarem a sala, mas eles se negaram. Disseram que não saíram não importasse o que estivesse acontecendo. Carl disse ‘beleza’ e olhou para sua mãe mais uma vez. Ela o encarou e perguntou o que ele queria. A boca de Carl se abriu tanto que parecia um balão se estendendo através da sala até que pode engolir sua mãe.

Todos na sala gritaram do jeito que pessoas malucas gritam. Estavam aterrorizados de uma maneira que pessoas racionais não podem compreender, estavam tão amedrontados que palavras não poderiam descrever ou mesmo pensamentos porque não existe linguagem para isso, em nenhum lugar. Então todos na sala gritaram e berraram até que a boca de Carl engoliu a todos.

Carl estava sozinho na sala branca. Mas mesmo tendo comido todos ele estava mais faminto do que antes. Ele arrebentou sua camisa de força e a comeu. Comeu os tubos e fios como se fosse espaguete. Esmagou a cadeira de rodas e a comeu. Quando não sobrou mais nada na sala para comer ele comeu seu próprio braço. E seu outro braço. Suas pernas quebradas. Então Carl começou girar e contorcer-se de uma maneira que as pessoas não conseguem se arrastar e contorcer. Sua boca se esticou de novo e Carl comeu seu próprio corpo. Engoliu seu peito, seu pescoço, seu estômago barulhento e os cientistas finalmente puderam ver pela tela de vídeo o que havia dentro de Carl. Havia trevas. Depois que Carl terminou de comer o resto de seu corpo não havia mais nada, apenas escuridão, uma pequena bola flutuando no meio da sala branca. Carl estava faminto. Carl estava muito faminto. Havia tanto terror fluindo dentro dele, como um vazio profundo e infindável, que tivesse que preencher.

Então Carl comeu a sala branca. Carl comeu os médicos, cientistas e policiais que estavam do lado de fora. Carl comeu a clínica psiquiátrica e a cidade ao redor, todos os carros, televisões, mulheres bonitas, crianças desalmadas e mães desalmadas. Carl comeu a América. E Carl comeu o mundo. No entanto ele continuava com fome, mais fome, então Carl comeu o sol, a lua, os planetas e as estrelas. As estrelas dançavam ao redor de Carl na escuridão do espaço como se o convidassem, Carl não quis dançar, ele queria apenas comer porque ele estava esfomeado, apesar dele ter sido uma pessoa um dia, um garoto com esperanças e sonhos e necessidades humanas, agora ele não passava de um faminto e iria comer tudo.


Tradução para a língua portuguesa feita por Alex Bastos.