sábado, 13 de novembro de 2010

Vida suja


Calor. Água, muita água.

Perdi a noção do tempo embaixo do chuveiro. As pontas dos dedos estavam enrugadas, inchadas, insensíveis. Assim como parte de mim. Queria que a substância líquida principal do banho penetrasse minha epiderme, derme, endoderme, que ela lavasse a alma. De certa maneira tinha certeza de não ter errado em minhas últimas decisões, não tivera outras opções. Eu era o que era por culpa do destino.

Sai de casa, lugar sujo, opressivo, pestilento. Peguei o ônibus sob os olhares desejosos e reprovadores. Pessoas ignorantes, incompletas, sem sonhos. Como eu. Peguei mais dois ônibus, mais pessoas, mais olhares.

Desci na avenida do trabalho, cumprimentei as colegas, desprezei as inimigas, rezei pedindo que aquele fosse o último dia. Todos os dias fazia a mesma oração.

Comecei a caminhar perto do meio-fio, rebolando, torcendo para que um carro novo, com cheiro de novo, com um jovem dono parasse logo e me chamasse.

As luzes dos faróis se sobrepunham sobre minha sombra, fazendo-a dançar. Talvez ela estivesse feliz, talvez não precisasse fazer o que eu fazia.

Ia e voltava me exibindo em uma vitrine invisível no limite de território seguro das prostitutas.

O carro parou, a voz me chamou.

“Quanto?” e as coisas de sempre.

Entrei no carro, velho, fedendo a mofo.

Não conversei, não tínhamos assunto. Além do mais não era paga pra conversar. Entramos no motel mais próximo. Decadente.

O cliente era bonito e de corpo atlético. Eu não tinha muita escolha, mas tinha preferência pelos que aparentavam ser mais saudáveis. Veio pra cima de mim, sem notar que eu me sentia como um pedaço de carne sendo usada apenas para deixar que o pênis intumescido entrasse e saísse até expelir sêmen.

Enquanto eu gemia e fazia movimentos perfeitamente mecânicos de prazer pude observar minha sombra. Ela também era abusada pela sombra dele. Éramos quatro ali, mas apenas dois aproveitavam o momento.

Ele terminou, gemendo, suando e gozando. Não se importava se eu estava gostando ou não. Deitou do meu lado sorrindo.

Levantei e fui ao banheiro. Liguei o chuveiro esperando que água lavasse e levasse meus pecados. Água, muita água.

Mais um dia.

Menos um dia.

3 comentários:

Matheus A. Quinan disse...

Alex, que evolução!
Além de o texto ser extremamente crítico, com passagens inteligentíssimas, você melhorou muito na construção. A estética dele está bem melhor, sem dúvidas.
Muito, muito, bom, cara.
Parabéns!

Roberto Denser disse...

É um texto completo, não precisa de mais nada.

Nathalya disse...

Um texto forte. Me passou muita verdade. Não é apenas um texto superficial. Gostei muito. Parebéns Alex. Melhorando a cada dia!